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zonaDINAmica

Clube Oficial de Fãs da Cantora e Compositora Dina.

Aniversário de Dina

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Ondina Maria Farias Veloso, Ondina Veloso ou Dina | Mulher | compositora autodidacta | cantora com um timbre ímpar e facilmente identificável | interactiva | confortável em vários estilos musicais, mesmo opostos e improváveis | vanguardista e pioneira | uma referente scat singing* | humanitarista | artivista de várias causas | trato maternal, transparente, humilde e de voo altaneiro | e mais, muito mais | aqui, agora e sempre.

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*Scat é uma técnica de canto que consiste em cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e com sílabas. Saber mais: Dina, a scat singing portuguesa e definição alargada de scat singing (wiki)

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Hoje fazemos Memória do 65º aniversário natalício de Dina. Também estás guardada em nós, onda de Luz, na nossa pequena "cesta".

 

Princípios Sobre Tolerância

Dina, artivista por natureza, também focou nas suas canções a Tolerância (e mais tarde acabou por ser vítima da intolerância/ignorância por parte de alguns), que, a 16 de Novembro tem o seu Dia Internacional. Hoje assinalam-se os 25 anos dos Princípios Sobre Tolerância adotados pelos Estados-membros da Unesco.

 

(https://www.sapo.pt/noticias/atualidade/artigos/dia-internacional-da-tolerancia-na-base-da-polarizacao-esta-a-ignorancia-que-gera-o-medo-e-o-odio

 

Texto:

Dia Internacional da Tolerância: «Na base da polarização está a ignorância que gera o medo e o ódio»

  • Sónia Santos Dias
    Sónia Santos Dias
16 nov 2020
Faz hoje 25 anos que os Estados-membros da UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura assinaram os ‘Princípios sobre a Tolerância’. É um documento onde os países se comprometem a defender os direitos fundamentais do Homem, a dignidade de cada um e a tolerância para a boa convivência. Neste que é o Dia Internacional da Tolerância, Sérgio Gorjão, secretário executivo da Comissão Nacional da UNESCO, traça-nos um retrato do que se está a passar no mundo ao nível da tolerância. É que, num mundo com acesso a tanta informação, é a ignorância e a polarização que se estão a instalar.
Dia Internacional da Tolerância: «Na base da polarização está a ignorância que gera o medo e o ódio»
 
 

A 16 de novembro, Dia Internacional da Tolerância, assinalam-se os 25 anos dos Princípios sobre Tolerância adotados pelos Estados-membros da Unesco. O mundo mudou muito. As causas são as mesmas ou diferem nestes 25 anos?

A tolerância é uma das principais conquistas que o ser humano pode e deve realizar no âmbito individual e pela sociedade. Nesse aspeto não há muitas diferenças com o passado, o Homem não mudou muito, mas as condições mudaram. O mundo tornou-se mais “pequeno”, as relações entre territórios passaram a ser muito mais intensas e assiste-se a um processo de globalização.

À medida dos interesses dos Estados e de algumas organizações poderosas, também assistimos a fenómenos de radicalização, por vezes com fundamentos pseudorreligiosos que escondem outras motivações mais grosseiras e que não consideram princípios essenciais à boa convivência humana, democrática, livre e tolerante.

Nos Princípios, os países signatários comprometem-se a defender os direitos fundamentais do homem, a dignidade e o valor da pessoa e a praticar a tolerância para a boa convivência. Com o mundo a polarizar-se (ou se é de A ou de B, não havendo margem para o intermédio) o que está a falhar?

A polarização deve-se essencialmente ao desconhecimento do outro. Não estar voltado para uma compreensão mundividente e por estar excessivamente concentrado numa visão sobre o “eu” ou sobre o “meu” grupo.

Na base desta polarização está a ignorância que gera o medo e os ódios. As sociedades constituídas por pessoas e grupos que têm esta perspetiva tendem a refletir isso mesmo, resultando numa tendência para os nacionalismos exacerbados, para entendimentos “à medida” do que é a religião; de criação de realidades paralelas e intrinsecamente falsas, que se sobrepõem à capacidade de análise crítica, à capacidade de negociação e de entendimento, ou mesmo à simples capacidade de compreensão.

 
Sérgio Gorjão
Sérgio Gorjão, secretário executivo da Comissão Nacional da UNESCO

E como se explica que num mundo globalizado e com acesso à informação como nunca tinha acontecido até agora cresça a intolerância perante a diferença? Não era suposto a sociedade ser mais culta e ponderada?

De facto, é estranho que hoje, mais que nunca, exista acesso a informação sem que esta se traduza em conhecimento. Isto decorre do facto de muita da informação ser de fraca qualidade, acolhida de forma unívoca, acrítica e facilmente circulante nas redes sociais virtuais, muito superficial e tendencialmente manipuladora; e porque as pessoas estão a perder ferramentas de análise, deixando, em muitos casos, que sejam algoritmos informáticos a decidir… daí que a ponderação seja menor.

Se compararmos o lapso entre a informação e a “sabedoria”, aí a situação ainda é mais crítica porque para construir sabedoria é preciso experiência, realização interior, introspeção, humildade… uma capacidade de montar, desmontar e remontar a “realidade” de forma holística, criativa e com um sentido de continuidade entre o passado, o presente e o futuro. Esta perspetiva tridimensional da nossa visão está bastante comprometida no presente.

A banalização da informação (no extremo a banalização de tudo, até da violência e do ódio) tem vindo a roubar tempo para um pensamento mais profundo, para uma tomada de consciência e tem contribuído para cimentar crenças em “princípios” erróneos (que emergem sem a base que deveria ser o conhecimento, a tolerância, a liberdade, a equidade, a igualdade de oportunidades, etc.).

 

Quais são os maiores motores da intolerância? Raça, religião, nacionalismo, homofobia..?

Sem dúvida que o maior motor da intolerância é a ignorância… o não estar consciente ou imbuído de um espírito de fraternidade, de uma compreensão profunda de que o “outro” é exatamente igual a mim… o não perceber o nosso lugar na natureza.

 

Da ignorância ao medo e ao ódio são passos muito curtos. É da ignorância espessa (o não entender de que “Eu” não sou mais nem menos que os outros e de que tudo é interdependente) que nascem as fobias, e que muitas vezes, em vez de as tratarmos, acabamos por as fazer crescer devido à importância que lhe damos. Aqui serve bem a alegoria do D. Quixote lutando contra os moinhos…

A raça, a religião, os nacionalismos, são apenas veículos para exprimir esta insegurança, este falso sentimento de diferença e este desconhecimento profundo.

«Hoje, mais que nunca, exista acesso a informação sem que esta se traduza em conhecimento. Isto decorre do facto de muita da informação ser de fraca qualidade»

A Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa avisa, no seu último relatório anual, que o racismo, a discriminação racial e a intolerância estão a aumentar. Os políticos parecem ignorar este movimento na sociedade. Não deveria haver mais firmeza para combater os discursos de ódio?

Tem havido e terá se der aprofundado essa determinação e compromisso claro. Há que saber controlar bem esta situação numa perspetiva social e de longo prazo. Isso começa nas escolas, em casa e na sociedade. Deve, também, haver políticas positivas que estimulem o debate sobre a tolerância, mas também poderá haver necessidade de medidas de contenção de epifenómenos, sem que se caia no extremo da censura ou no cercear das liberdades e garantias básicas dos cidadãos.

 

Há pouco tempo duas universidades e várias instituições de ensino secundário em Lisboa e Loures foram vandalizadas com dizeres racistas e xenófobos. É apenas um exemplo. Portugal está a tornar-se intolerante e racista ou apenas antes tal não era manifestado?

Para responder a esta pergunta haverá que fazer mais estudos e em vários ângulos de abordagem. Pode dizer-se que agora é mais fácil conhecer estes fenómenos e a sociedade está mais desperta para esta realidade. O facto desses “escritos” serem feitos em estabelecimentos de ensino prova bem que é aí que terá de começar o processo inverso. É uma relação de causa-efeito, mas o que é esperado da sociedade (incluindo das escolas) é que reaja positivamente, ou seja, que se torne consciente e atenta a esta situação.

Mas recentemente vimos uma situação caricata em que um grupo alargado de pessoas não queria aulas de cidadania nas escolas, onde se ensina precisamente a ser bons cidadãos, a ser tolerantes. Como se explica uma coisas destas?

Opinião muito pessoal: mais uma vez esta situação ocorre por puro desconhecimento…. É uma espécie de manifesto anti-qualquer-coisa. Os argumentos não colhem e a meu ver nada obsta criação deste novo conteúdo escolar. Aliás, nada deve obstar às aulas de história, de filosofia, de direito, de saúde, etc… A aula de cidadania vem nessa continuidade e é essencial à consciencialização de que fazemos parte de um todo. Temos direitos, deveres, liberdades e garantias consignados em princípios básicos e constitucionais. Não somos uma democracia à la carte. De forma consciente todos temos possibilidade de pensar justificadamente de uma forma, ou de outra, mas terá de haver um campo comum. Sinceramente só percebo o receio destas (poucas pessoas) pelo seu desconhecimento ou desconforto face à abordagem de temas supostamente “sensíveis”. O que será útil é podermos ter uma ideia clara e flexível de como se compõe a sociedade, logo, recorrendo a um ditado popular “cego não é aquele que não vê, mas aquele que não quer ver”.

 

Os partidos nacionalistas de extrema direita estão a ganhar palco na Europa. Isto pode traduzir-se num retrocesso na tolerância ao diferente? Que perigos mais estão à espreita?

É extremamente preocupante que um número significativo da população (nomeadamente dos jovens em idade escolar) não conheça História. A História da humanidade está cheia de eventos violentos, de regimes opressivos, de escravatura, etc… Chegamos ao século XX, muita coisa mudou. A diferença da sociedade de 1901 para a do ano 2000 é abissal. Pelo meio ficaram guerras a uma escala nunca antes vista, mas também é neste momento que se consubstanciam instituições internacionais de controlo e de compromisso entre os Estados, promovendo a paz, o bem-estar, a saúde, o conhecimento e a educação, numa perspetiva de diálogo intercultural. É neste campo que teremos de estar inequivocamente.

É natural que haja ciclicidades, mas não será natural não termos capacidade de reagir face a ameaças já conhecidas na nossa história.

Dia Internacional da Tolerância: «Na base da polarização está a ignorância que gera o medo e o ódio»

Que papel as redes sociais estão a ter e o que estão a provocar na sociedade particularmente no que toca à tolerância/intolerância das pessoas?

As redes sociais podem ser bem usadas, ou mal usadas. O problema não são os mecanismos digitais de comunicação, mas sim a forma como os pomos à nossa disposição, ou a forma como permitimos que isso nos afete. Se dizemos que preservamos a nossa liberdade, então porque é que permitimos que as redes digitais nos controlem?

As redes sociais digitais podem ser um veículo de transmissão de ideias em ambos os sentidos, porém, há que cuidar que o tempo é limitado, por vezes até muito escasso, e temos de ter tempo para pensar no que realmente importa…

 

As pessoas têm vivido apáticas e afastadas de causas. É hora de se afirmarem e tomarem uma posição, ou devem ignorar e não alimentar questões, por exemplo, nas redes sociais?

É sempre hora de tomar consciência e de assumirem compromissos. Não sei se a aparente apatia de hoje é diferente da apatia de algumas décadas em que a maioria pensava que as coisas da política eram “lá para eles”… Depois há períodos que são mais mobilizadores, mas também têm alguma euforia. O 25 de Abril em 1974 foi um desses momentos históricos. A maioria da população não se envolvia em discussões políticas, mas esse foi um momento de grande esperança que tocava a todos, simbolizava, acima de tudo, o fim de uma guerra fratricida e o alcançar de uma certa libertação. Quanto ao alimentar de questões nas redes digitais… vale o que vale, e muitas vezes vale pouco… A maior parte não passam de reclamadores ociosos de sofá. A prática faz diferença… o serviço altruístico de causas é, felizmente, uma realidade de muitos e é isso que vale a pena realçar.

Nunca o Dia Internacional da Tolerância fez tanto sentido. O que é necessário transmitir às pessoas?

Que acreditem no seu potencial e nos outros, que comecem esse processo de transformação em si mesmos e nas suas casas… estarem atentos e verificar se há incongruências entre aquilo em que dizem acreditar e as sua ações e pensamentos. Ter a humildade de corrigir erros em nós e também ter coragem de reconhecer esses erros na sociedade. Contribuir e exigir medidas para uma sociedade melhor, mais justa, mais livre e mais consciente. Investir no “pensar” desapegadamente; não permitir que as chamadas “redes sociais digitais” nos dominem… desenvolver conhecimento e espírito crítico; desenvolver um sentimento de solidariedade e de respeito pelo outro.

 

“If you tolerate this then your children will be next” (“se tolerares isto os teus filhos serão os próximos”) é o refrão de uma das mais famosas canções da banda rock galesa Manic Street Preachers. Vale a pena evocar esta música para fazer despertar a consciência de que todos somos iguais.

Contra a LGBTIfobia

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Dia 17 de Maio é o Dia Internacional Contra a LGBTIfobia. "Deixa Lá" é uma composição de Dina que aborda a Diversidade Sexual (a frase da imagem acima pertence à esta canção).

De lembrar que Dina é um referente da vanguarda:

- Já em 1975 fazia concertos com canções que compunha e se fazia acompanhar em palco dedilhando a sua guitarra;

- Foi a primeira intérprete e compositora LGBTI portuguesa no palco do Eurofestival - Eurovision Song Contest, - em 1992... E quiçá a primeira mulher compositora no dito festival;

- É, até ao presente dia, a única mulher na História de Portugal que fez e cantou hinos políticos;

- É um ícone da Filantropia, pois desde cedo revelou um coração largo e abraço várias causas.

 

 

 

Diversidade no Cancioneiro (Hinário) de Dina

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O cancioneiro de Dina - cantora, compositora e instrumentista (guitarra) - está repleto de canções, diria antes de autênticos hinos, que apelam à visibilidade, motivação, liberdade, superação e celebração da Vida ("Dinamite", "Por Alto Mar", "Ilha do Tesouro", "A Cor da Vida", "Guarda-Chuva",...), à diversidade e empoderamento feminino ("Deixa Lá", "Lençóis de Vento"), de canções que desvendam o Amor no seu estado mais puro ("Guardado em Mim", "Por Causa do Teu Olhar", "Retrato", "Acordei o Vento",....) ou mais atrevido ("Tafetá", "Aqui Estou") ou mesmo com a fantasia e magia próprias de um conto de fadas (“Amor d’Água Fresca”, "Aguarela de Junho", “Que É de Ti",...), canções onde a pura Poesia toma um lugar de destaque ("Arquitecto", "Suco Açúcar"), canções de carácter interventivo ("Desamparem-me a Loja"), que falam de coisas simples e pequenas da Vida ("Pássaro Doido", “Ai, A Noite”, "Vitorina"), de sítios ("Carregal do Sal", "Esta Manhã Em Lisboa"), do orgulho em ser Português ("Soa Bem"),... Enfim, cantos e clamores da alma de Dina que nos fazem sonhar e pensar e nos transformam em uma pessoa melhor, como se de sessões de coaching se tratassem! Obviamente, as letras são acompanhadas de belíssimas melodias 'sui generis', essa estética tão própria de Dina, em estilos ricos e diversos (Rock, Pop, Folk, Funk, Jazz, World Music, Soul, Trova...) , e, claro está, do timbre e voz característicos e ímpares de Dina. Falar de Dina não é só falar da sua Música etérea,do pioneira que a Dina foi em Portugal (primeira cantora e compositora, que se fazia acompanhar da guitarra) mas é obrigatório focar os seus princípios, todo esse seu lado humano e altruísta, com um coração largo que abraçou várias causas nobres, a sua ternura, a sua inocência no acreditar e fazer do Mundo um lugar melhor! O seu legado fica entre nós, a descoberto, para ser conhecido por quem não o conhece e para seguir a ser apreciado por aquelas pessoas que o conhecem e desfrutam de bom grado. Urge voltar a devolver ao público esse material, incluindo obviamente os vários inéditos (em português e inglês), mesmo que sejam só com voz e guitarra (e já não chega?). Mais uma vez, a minha gratidão e um grande Bem-Haja, Dina... Aqui, agora e sempre!

Dina: Primavera Eterna

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Família, amigos e fãs esperavam o milagre... Que não aconteceu. O marulho dessa onda de nome Dina – Ondina Maria Farias Veloso – não era imperceptível, era poderoso, em tudo idêntico a um tsunami! Dina tinha objectivos claros, que passavam por criar ondas com a sua Música (que é intemporal!), agitar as águas da Sociedade e das mentes para não ficarem chocas. Dina abraçou tudo e todos num gesto Universal e Humanista, com o seu conhecido coração largo.

 

Uma grande Mulher e Persona que a Dina foi, digo, é - à uma Glória não se diz adeus, pois ela é eterna, - exemplo de Valores, Coragem, Amor, Entrega, Dedicação. Dina nasceu na Primavera de 1956 e acreditava, com alguma inocência, no Bem dos demais, que os outros eram também pessoas de Bem. Mas apesar de ter começado a editar música em 1975, já num Portugal dito livre e democrático, o lápis azul da censura se manteve e mantém, sinal de um suposto poder que há quem teime em demonstrar ter, não respeitando a Liberdade de terceiros. Dina sofreu na pele a censura de pseudopoderosos, que a proibiram de fazer canções e as cantar em plena época de liberdade de expressão. Até parece mentira, mas a liberdade que temos não passa de uma aparência de Liberdade, algo semelhante à Alegoria da Caverna...

 

Um mês depois da partida física de Dina, também em plena Primavera, o coração continua a meia haste e assim permanecerá ad eternum, derivado à interrupção da sinfonia desta carismática Vida, de uma forma tão abrupta e precoce. Dina encontra-se agora na Primavera Eterna.

 

Dina: Um Amor... De Água Fresca

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Pegando no cognome de Dina, lembrado e atribuído pelo Samuel Úria, trago a canção "Amor d'Água Fresca" (música e interpretação de Dina e letra de Rosa lobato de Faria), que faz parte da memória colectiva de Portugal e que representou o País no Eurovision Song Contest (ESC) de 1992 em Malmö, na Suécia.

 

Esta canção, após a vitória no Festival RTP da Canção, foi muito maltratada por alguns pseudo-jornalistas (sem formação em jornalismo, nem em música, nem como Pessoa sequer), que achavam que a letra não tinha qualquer sentido. Longe de ser a única canção cuja letra foi criticada, ainda hoje essa controversa sem sentido é lembrada. Para alguns, a papinha tem de ser toda feitinha e dada na boca. Para essas pessoas, lembro uma belíssima canção brasileira com letra em português de Fernando Brant e com música de Milton Nascimento, aqui na saudosa voz de Elis Regina - "Canção da América". Fazendo um paralelo entre estas duas canções, a dada altura a letra de Brant diz "Amigo é coisa pra se guardar / Do lado esquerdo do peito". Ora, para se conhecer quem é amigo há que primeiro experimentar - "trincar". - Porém, antes disso há que tomar a iniciativa de conhecer pessoas - "pegar". - Só desta forma se pode finalmente, a quem mereça, guardar do lado esquerdo do peito - "meter na cesta". - É este o encanto da complexidade do Amor, simplificado/descodificado nas três acções pegar, trincar e (caso valha a pena) meter na cesta [no coração]. Esta descodificação também foi feita por um Sítio francês, que compreendeu bem a essência do Poema, já que enaltece a originalidade da canção e elogia o vocabulário novo atribuído ao tema mais recorrente das canções [o Amor]:

 

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O 17º lugar e os 26 pontos conseguidos pela canção foram contestados. E ainda é considerado injusta a má classificação obtida, onde em vários TOPs do Youtube isso é espelhado, colocando "Amor d'Água Fresca" em melhores lugares, inclusive nos 10 primeiros lugares... E até no TOP3(!), chegando a rotular a canção como bonita e cativante ("cute" e "catchy"):

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O êxito pré-ESC referente à canção portuguesa por parte da Europa, que teve acesso ao videoclip que cortava com tudo o que já foi feito, assim como a versão "ecológica" em língua inglesa, murchou graças a vários desrespeitos por parte da RTP. Nesse ano de 1992 a delegação da RTP lembrou-se de proibir a participação das autoras e intérprete da canção (Dina e Rosa Lobato de Faria) no cocktail de boas-vindas na Suécia, ficando retidas no quarto de hotel. O que a RTP comunicou às restantes delegações, sobre a ausência das pessoas mais importantes de Portugal? Estavam assim tão famintos, com uma gula insaciável? Além disso, os planos de realização eram monótonas e repetitivos, sem diversificação, sem ritmo. O vestuário de Dina era completamente desadequado à canção, estando ela mais livre e solta com o que levou na final nacional da RTP, onde as cores azul-água e branco destacavam o tema da canção, assim como a blusa com frutas pintadas a mão pelo José Manuel Costa Reis. Ninguém da comitiva da RTP teve a amabilidade e o cavalheirismo de distribuir o merchandising que os amigos de Dina tiveram o trabalho de fazer para promoverem a canção de Dina. Teve de ser a própria Dina que, saco às costas, andou a distribuir o material promocional pelas outras delegações e intérpretes, o que foi muito mal visto pelas outras delegações. Ao longo da história do ESC, os nossos representantes são alheios às más classificações obtidas no ESC. A pontuação obtida por Portugal foi a seguinte:

 

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"Amor d'Água Fresca" é uma canção que desperta não só a boa disposição e energia, mas também todos os sentidos, é uma canção altamente sinestésica! Recordamos de seguida as actuações na semifinal e na final do Festival da Canção, assim como o videoclip e a passagem pelo ESC (da final e do 2º ensaio, que foi bilingue) desta canção autobiográfica da eterna Dina:

 

Imagens: Internet

 

Dina, In Memoriam

 

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Faz hoje 8 dias que Dina partiu fisicamente. A consternação ainda está apoderada de mim. Queria acreditar que o caso da Dina era o mesmo de um cantor célebre em todo o continente americano e Espanha, conhecido por El Puma, como comentei com um outro fã de Dina, que aquando a notícia da doença da Dina em 2016 vim a descobrir que ele também tinha fibrose pulmonar desde 2000. Em 2017 El Puma foi sujeito a um duplo transplante de pulmão e já teve uma breve actuação este ano... Sonhava que acontecese o mesmo com a nossa Dina. Que em dias surgiria na comunicação social que a Dina foi transplantada e já tinha voltado a gravar... Mas na manhã da passada Sexta-feira "acordei" para a realidade. Comparar Portugal com Estados Unidos da América (ou outros países da Europa) leva a, no mínimo, uma desolação gigante! O número de mortes por aqueles que aguardam por um transplante em Portugal são verdadeiramente assustadores (descobri após a Dina nos deixar)!...

 

Passa 8 dias que Dina partiu... E lembro o primeiro dia em que a Dina apareceu no pequeno ecrã, mostrando o Poema Inocência de António Gedeão que a própria Dina musicou e que se revela muito biográfico, uma imagem da própria Dina:

 

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.

 

Ficam algumas reacções ao falecimento de Dina (Sítio Festivais da Canção): 1, 2, 3 , Kris Kople e da Ministra da Cultura. É de leitura obrigatória a "Carta de Despedida" de Júlio Isidro à Dina, do qual retiro estes dois parágrafos:

 

"A Dina passava da doçura do “Gosto do teu gosto” para a explosão do seu “Dinamite” num acorde da guitarra, levando consigo um público que lhe tinha carinho.
Foram anos a escrever cantigas e a mostrá-las em disco ou concertos, construindo um património que vale a pena ouvir em estreia, ou rebobinar e recordar, para se lhe atribuir o valor que se foi perdendo na voragem do preconceito e dos chamados novos tempos".

 

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Sem menosprezo para outras pessoas, destaco as palavras de alguns daqueles que participaram na Celebração de Vida, devida e em Vida, da Dina em 2016 - Dinamite, - fruto do trabalho do Gonçalo Tocha (Obrigado, Tocha... E todos os que se juntaram à esta grande Celebração!):

 

- Gonçalo Tocha: “Foi um daqueles encontros de almas em que nos tornamos muito cúmplices, falámos muito sobre vida, arte, música. Era uma pessoa muito aberta, faladora, amiga do seu amigo, generosa, sem preconceitos. Por isso é que ela fez tanta música diferente, pop, rock, baladas, funk”... “Era uma mulher hipertalentosa e, como pessoa, era exatamente o que mostrava ser. Uma pessoa acessível, carinhosa, amiga e de uma simpatia extrema”. “Em 1982 era quase a única cantora-compositora e hoje em dia está muito longe disso. Só aí já temos um legado”. “urge reeditar” os discos, especialmente os dois primeiros, “Dinamite” (1982) e “Aqui e Agora” (1991), que são “muito difíceis de encontrar”.

 

- Ana Bacalhau: “Ajudou a pavimentar a estrada que eu e outras mulheres pisamos agora”. Os espetáculos relembraram uma obra que continua a não ser conhecida “e reconhecida” em toda a sua dimensão. “Talvez ainda não lhe tenha sido dado todo o crédito que merece”, mas será uma questão de “descoberta”. Se as músicas forem ouvidas o respeito será imediato, acredita, porque “a qualidade está lá”. 

 

- Samuel Úria (crónica Da Água Fresca, no Sapo): "Foi senhora sempre. Senhora quando os nossos ouvidos, os seus pulmões, ou os corações de muita gente a maltrataram. Senhora sempre". "Amor de Água Fresca não é a melhor canção da Dina, mas Água Fresca podia ser o seu cognome". "Eu lembro-me bem dos anos 80; quantas vezes não devem ter sugerido à Dina para parar de costurar melodias e ir antes para casa coser meias?  Quantas vezes não lhe terão amesquinhado as opções e as ambições?". 

 

- João Gil (Diabo na Cruz): "Esta é a Dina, alguém por quem me apaixonei no primeiro minuto. Alguém que lutou contra o mesmo Adamastor que a minha mãe, que julguei nunca mais conseguir tirar da cabeça a primeira imagem que tive dela, a entrar na nossa sala de ensaios, com a sua garrafa de oxigénio na mão, a cantar uma musica connosco, a parar no primeiro refrão e a pedir desculpa por isso. Não precisavas de pedir desculpa... Desculpa eu não te ter abraçado mais vezes e ter dado mais beijinhos enquanto cá estiveste..."

 

- Alex D'Alva Teixeira: "Há quem diga que não devemos conhecer os artistas que admiramos, dado que a noção que temos deles é muitas vezes diferente da realidade, correndo o risco de sairmos desiludidos. Com a Dina, foi o oposto."

 

Antes de recordar a Celebração Dinamite no Teatro Rivoli (Porto), aconselha-se a leitura do artigo de Carlos Carvalho (ESCPortugal) que nos traz um especial sobre a discografia de Dina:

 

 

 

Imagens: Internet

Dina (1956-2019), (Um)A Cor da Vida

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Na noite do dia 11 de Abril de 2019, a Cantora e Compositora Dina (nome artístico de Ondina Veloso) falece no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. Em 2006 foi diagnosticada com fibrose pulmonar, doença esta que a Ciência dá apenas 3 anos de vida, mas que a Dina teve fôlego para 13 anos, graças à paixão e garra pela vida. Aguardava por um transplante pulmonar, mas nunca chegou a vir o pulmão que ela tanto precisava para continuar a viver.Uma lutadora nata, que ninguém andou com ela ao colo, foi tirado a ferros o sucesso de Dina, que para muitos passa ao lado por desconhecimento da Obra, por culpa da comunicação social (sobretudo a rádio e a televisão, mas também a imprensa) e empresas discográficas, como referiu Júlio Isidro. Desde sempre a Dina teve o ímpeto para a cantoria. Foram 62 anos de Vida e de casamento com a música. 62 anos que se poderiam simbolizar num ambar.

 

Dina é a cor da própria Vida. Vida que Dina tão bem interpretou com o seu timbre único e característico em que o Mundo parava de girar mal a Dina abria a boca, com as palavras suas, mas sobretudo de poetas e poetisas (com pinceladas de algumas palavras suas, que serviam de mote) e, obviamente, musicou, pois a génese de tudo era a própria música. A Vida que a Dina com arrojo para além de cor deu também forma, textura, sonoridade, sabor, perfume e sentimento, tudo isto nos ofereceu em forma de Música, materializando o que para muitos não passaria de fórmulas complicadas que provariam a existência de um qualquer Buraco Negro algures no espaço. Por coincidência, horas depois da primeira imagem obtida deste a Dina nos deixa órfãos.

 

Dina não é reduzível, redutível. Tocou vários estilos musicais, desde a balada ao rock, passando pelo funk e outras "etiquetas". Dina encarna na perfeição uma trovadora dos tempos modernos. Alguém que menospreza a Obra de Dina por ideologias políticas (que Dina nunca teve!) ou aversões sexuais mostra, no mínimo, ausência de inteligência. Dina, por afinidade com uma pessoa, fez um hino partidário e participou na campanha desse ano de 1995, afinal, nesta sociedade é preciso dinheiro para se sobreviver, ou não? A História actual está cheia de nomes masculinos que tiveram e têm essa mesma atitude, mas que ninguém lhes atira pedras. Só por uma mulher ter a ousadia de fazer algo que está reservado(?) ao universo masculino dá direito a ser enxovalhada? Ó meus caros, Dina desde cedo se habituou ao lugar de primícia: É a primeira cantora compositora de Portugal - o dizem vários especialistas (será por, mesmo assim, ter mais Obra publicada?), - e não sendo a primeira a representar Portugal no Eurovision Song Contest enquanto tal, foi-o em dupla feminina, com Rosa Lobato de Faria em 1992, com uma canção simples, quase infantil, mas com uma maturidade brutal que ainda há quem ache a letra estranha, passado quase 30 anos! É estranho pegar em algo (pessoa, situação,...) novo, o trincar para arriscar nessa aventura e, se for de qualidade o meter na cesta (guardar no coração - estar atento ao minuto 3:20 e seguintes)? Dina, ainda moça, começa a compôr com a guitarra dos irmãos mais velhos que estava lá por casa, começa a dar nas vistas, quer em grupo (Quinteto Angola), quer depois em solitário, editando 2 EPs. Ainda a televisão era a preto e branco quando Dina teve a sua primícia televisiva musicando um poema de António Gedeão num programa do Nicolau Breyner. Quando a RTP começou a cores, no Festival da Canção de 1980, a Dina lá estava e conquistou o Prémio Revelação. Na primeira telenovela portuguesa, Dina marcou presença com "Aqui Estou". Em 1993, na primeira telenovela da TVI Dina compõe e dá voz ao genérico de "Telhados de Vidro". Também na TVI, o seu genérico "Que é de Ti", para a telenovela Filha do Mar, chama a atenção para a produção televisiva, marcando um antes e depois. Dina é o diminutivo de Ondina, que tem origem etimológica na palavra onda, logo Dina é sinónimo de movimento, liberdade, energia, revolução. Dina estava destinada a ser a primeira, mas nasceu em um País que não valoriza o que é seu. Mesmo não tendo recolhido grandes frutos, Dina foi importante para a Música e a Sociedade actual estar e ser, de certo modo, mais madura.

 

Dina teve percalços ao longo da sua carreira, que poderiam ter sido evitados se a respeitassem enquanto Cantora, Compositora e, claro, Pessoa e Mulher. Os maus tratos são condenáveis, assim como privar alguém da liberdade de criar. Portugal tem fama de ter sido dos primeiros a abolir a pena de morte. Isto é só na teoria? 

 

Ao todo, foram cinco as décadas que Dina, indissociável da sua guitarra, nos brindou com as suas canções. Canções, algumas, que andam por aí perdidas. Mas perdida é algo que não está a sua Música, essa está e continuará sempre entre nós.

 

Bem-Haja Dina!

 

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Imagens: Internet

 

Dina nos Deixou

É com pesar que informo que na noite passada faleceu a Cantora e Compositora Dina. As sinceras condolências à Família. Para todo o sempre se perpetuará a sua música. Bem-Haja Dina, por tantos e tantos momentos de Felicidade que me deste, quer pessoalmente quer através da tua Música. Descansa em Paz.

 

Recordamos alguns dos seus êxitos: