Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

'Caminho das Estrelas: Dina'

Entrevista ao jornal «Correio da Manhã», em 16 Agosto 2008. 
 

'A música é a única forma que tenho de ser feliz na vida'

Onze anos depois da reedição do álbum ‘Guardado em mim’, Dina está de volta aos discos com ‘Da Cor da Vida’, um trabalho que reúne o melhor da sua carreira e mais dois inéditos. O pretexto para falar com uma menina de 52 anos

 

Tem andado desaparecida. O que andou a fazer nos últimos anos?

Na verdade, embora não tenha andado a dar muito nas vistas, estive sempre ligada à música, quer através de concertos quer através das novelas.

E como é que se sente neste seu regresso aos discos?

Sinto-me renovada, as minhas ausências são pensadas. Se me afasto é porque acho que não é o momento certo para gravar.

E com tantas ausências vai dando para viver da música?

Há alturas em que é muito complicado, mas como a família está por perto às vezes também ajuda. Depois, como autora que sou, tenho sempre algumas receitas que uso em alturas de SOS. É a fonte onde vou buscar os meus royalties (risos). Mas nunca ando muito aflita, a minha casa está quase paga e não sou uma pessoa de grandes gastos. Tenho mais pena de não ter as guitarras que gostaria do que um grande carro.

A Dina já leva 28 anos disto. As coisas mudaram muito?

Mudaram um pouco, mas não tanto como se diz. A vontade de fazer música continua e há projectos muito bons a nascer todos os dias. Uma das grandes diferenças é que hoje as coisas estão mais acessíveis. Uma banda já consegue gravar um disco numa garagem, com um computadorzinho. Entretanto, criaram-se circuitos alternativos, como o Myspace, onde os artistas podem fazer passar os seus trabalhos.

Que gozo é que ainda consegue tirar da música?

O gozo todo. Dá-me um enorme prazer perceber que ainda tenho imensas coisas para fazer e ver que continuo a ser uma mulher em construção na música. Dá-me gozo constatar que a música é a única forma que tenho de me projectar na vida e de ser feliz.

Não é frustrante ouvir o público pedir para cantar sempre as mesmas canções?

Frustrante não, mas às vezes é um pouco cansativo, sobretudo quando temos coisas novas para mostrar e o público quer sempre ouvir as canções antigas. Por outro lado, nós temos de perceber que isso é normal e que faz parte desta profissão.

Tem a percepção de quem é o publico que hoje ouve a Dina?

Acho que é um público muito alargado, dos 20 aos 50 e tal anos. É engraçado porque, se durante algum tempo achei que faltava direccionar a minha música para um determinado mercado, hoje penso que isso já nem se justifica. Toda a gente conhece o meu nome, podem é não conhecer bem as músicas. Já encontrei malta de 20 anos rendida ao meu trabalho.

Nasceu em Carregal do Sal. Que relação tem hoje com a sua terra natal?

A melhor. Actualmente moro em Lisboa, mas sempre que posso fujo para lá.

O que se recorda de Carregal?

Recordo-me de uma infância normal, passada em casa do papá e da mamã, mas acho que a minha melhor fase foi mesmo a adolescência: o grupo de amigos e o culto da música. Lembro-me do primeiro cigarro que fumei às escondidas e das primeiras cervejas. Na adolescência vive-se estas coisas muito intensamente e comigo não foi diferente. Ainda mais porque ser adolescente em Carregal do Sal, há muitos anos, não era uma coisa fácil.

E a música?

Lembro-me que tínhamos o culto dos discos que saíam. Hoje vamos à internet e ouvimos logo tudo em primeira mão, antes de os discos saírem para as lojas.

Qual é a primeira memória que tem relacionada com a música?

Acho que foi quando ouvi o ‘Rain and Tears’, dos Aphrodite’s Child.

Que idade tinha?

Devia ter uns cinco ou seis anos e lembro-me de ter ouvido essa canção num rádio que existia no quarto da minha mãe.

Acha que o impulso para a música surgiu aí?

Não sei, acho que foi mais quando vi lá em casa uma guitarra que pertencia ao meu irmão mais velho. Lembro-me que tive logo a curiosidade de pegar nela. Como o universo da música que existia lá em casa era só o da rádio, a guitarra despertou-me logo o interesse. É engraçado porque comecei logo a querer fazer canções da minha autoria.

Recorda-se da primeira vez que subiu a um palco?

Foi no teatro a representar, numa peça escrita por um jardineiro do colégio Nuno Álvares, onde andava.

E na música?

O meu primeiro espectáculo foi com o Quinteto Angola, mas antes disso fui muitas vezes chamada para cantar em público. Recordo-me que nas visitas de estudo era sempre eu que cantava no microfone da camioneta. Mas o Quinteto Angola foi, de facto, a coisa mais séria. Estivemos juntos dois anos.

Como foi essa fase?

Muito engraçada. Era eu numa carrinha cheia de homens. Chamavam-me rapazinho, mas tratavam-me como uma princesa (risos). Eu não fazia nada, eles montavam tudo e eu só tinha de pegar na guitarra. Foi uma fase curiosa porque as pessoas não estavam habituadas a ver uma rapariga num grupo de baile.

Começou a tocar com o nome de Ondina Veloso, mas acabou por mudar para Dina. Foi por uma questão artística?

Talvez. A mudança aconteceu nos anos 80, num período em que vivíamos de nomes sonantes e inicialmente eu até estava para me chamar Dinah com ‘h’. Ainda saíram alguns artigos em jornais com esse nome, mas eu não tenho perfil para ter um nome com ‘h’ (risos). Ficou Dina até hoje.

Que recordações guarda dos festivais da canção?

Recordo-me muito bem do primeiro, que tinha um júri de sala constituído pela Simone, João Vilas Boas, João David Nunes e o Carlos Avilez, em que ganhei o prémio revelação, apesar de ter apresentado o ‘Guardado em Mim’, que era uma música completamente fora dos moldes habituais. Isto numa altura em que o Festival era uma coisa séria.

O que acha que aconteceu entretanto que parece que ninguém leva o festival a sério?

Sinceramente não sei, mas se não levam a sério deviam fazê-lo, porque é o único que temos.

Com o ‘Amor de Àgua Fresca’ conquistou apenas um 17º lugar na Eurovisão. Sentiu-se injustiçada?

Não, porquê?

Porque já na altura se dizia que as votações eram combinadas!

Claro que quando me desceu a adrenalina ficou um gostinho amargo, masnão guardei ressentimento nenhum. Gostava de ter ficado nos dez primeiros, mas não deu, paciência. O engraçado é que hoje há suecos e finlandeses que ainda me mandam mensagens para o meu e-mail a recordar essa actuação.

Como é que nasceu essa canção?

Essa canção surgiu com a ideia de romper um silêncio de muitos anos, isto já depois de ter editado um disco chamado ‘Aqui e Agora’, que eu achava espectacular, mas que não funcionou. Por isso, senti a necessidade de voltar ao Festival e de fazer uma canção que não falhasse, daquelas para ganhar. Como eu sabia qual era a fórmula, pedi à Rosa Lobato Faria para escrever a letra e depois dei a ‘demo’ a ouvir em primeira mão à minha afilhada, que tinha 3 anos. Quando a ouvi cantar logo à primeira, disse para mim: 'Pronto, está feito'. Do que me lembro é que ganhei por uma margem enorme.

Está contente com tudo aquilo que conseguiu?

Sim. Se cheguei aqui é porque tudo o que vivi valeu a pena.

 

NÃO SOU DE FAZER 'LIFTINGS'

 

Aos 52 anos, como é que se caracteriza como pessoa?

Sou uma mulher em construção. Todos os dias tento aprender para ser uma pessoa melhor.

Tem lidado bem com o passar dos anos?

Sim, com uns trambolhões e uns acidentes pelo meio, mas tenho lidado relativamente bem.

Não a assusta envelhecer?

Não. Na verdade assusta-me muito mais ficar doente. Envelhecer não me mete medo, até porque não sou daquelas mulheres que quando aparece uma ruga vão a correr fazer um lifting. Esse tipo de coisas não têm nada a ver comigo. Sei que tenho uns quilos a mais, mas sou uma mulher que gosta muito da nossa gastronomia e de um bom vinho português.

Acha que já escreveu a canção da sua vida ou que ela ainda está para vir?

Já escrevi as canções, mas acho que ainda não escrevi ‘a’ canção. É muito difícil ter de escolher uma.

 

PERFIL

 

Ondina Veloso nasceu a 18 de Junho de 1956, em Carregal do Sal. Entre 1975 e 1977 fez parte do Quinteto Angola e Em 1980, já como Dina, participa no Festival RTP da Canção.

 

Miguel Azevedo
 
 
FONTE

 

publicado por zonaDINAmica às 10:27
link do post | DINAmizar
1 comentário:
De mímica a 15 de Maio de 2009 às 21:30
Tá fixe, a entrevista!


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zonaDINAmica

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